sábado, 9 de maio de 2009

Fragmentos: O mundo de Helena

Manoel Carlos imortalizou as Helenas através de suas novelas amarradas nos dramas da classe média carioca e, com a desenvoltura de mestre da teledramaturgia que possui, ele ajudou a popularizar o nome e símbolo Helena pelos quatro cantos do Brasil. Saíram do anonimato as Helenas das feiras populares, as que vendiam cosméticos de porta em porta, as que não perdem uma feijoada com samba e uma cervejinha gelada nas tardes quentes das comunidades por onde moram. Näo podemos esquecer tambem das Irmâs Helenas que oram ajoelhadas pelas igrejas desse imenso Brasil. Dona Helena, Leninha, Lucia helena, Lena, as variacôes nâo sâo poucas. Ontem a tarde eu estava no posto 9 da praia de Ipanema e, depois de dar algumas voltas pela praia tentando vender as palhas italianas que ha dois anos comercializo ali, entre os postos 9 e 11, sentei para descansar um pouquinho e curtir o fabuloso final de tarde que estava acontecendo. Fiquei ali sentado por meia hora observando, entre outras coisas, os outros vendedores indo e vindo tentando conquistar o seu tão questionado sustento. A cinco metros de mim uma criança tentava vender seus chicletes para três adolescentes que estavam se bronzeando. Dessa vez a criança não teve muita sorte e quando já ia seguindo para a próxima abordagem eu assobiei para que ela viesse até a mim. Tentei por três, quatro e quando quase já desistindo ela finalmente escutou e, depois de me localizar, veio devagarzinho até mim. “Oi tio, vai querer um chiclete? compra aí pra mim ajudar!". Iniciamos uma conversa e aos poucos ela foi me contando um pouquinho da sua vida.
Seu nome era Helena, tinha 9 anos e não se lembrava desde quando estava vendendo na praia. perguntei se estava sozinha na praia e me respondeu que sim e depois que não, devia estar me estudando, parecia estar acostumada àquelas perguntas. "Minha mãe mora lá na Rio Branco" falava. Eu conheço pouco o Rio e pelo pouco que sei as únicas pessoas que moram na rio Branco dormem na rua. "...ela dobrou duas vezes essa semana”. Perguntada sobre o que fazia com o dinheiro das vendas ela, entre risos, conta que gasta com comida. Peguei uma das minhas palhas de chocolate e lhe ofereci, ela adorou e enquanto lambia os dedos sujos contava-me que gastava quase todo dinheiro que ganhava com biscoitos, ela amava biscoito, e o que sobrava ela dava para a mãe. Mais para frente ela me segredou que tambem amava tomar banho de praia e que sua mãe chamava-se Lucia Helena e que, alem dela, tinha mais um irmão de 11 anos chamado Tiago. Contou-me que antes moravam na Jerusa, ¨nunca ouvi falar de nenhuma comunidade com esse nome" brinquei com ela. Ela sorriu e mudando de assunto me perguntou por quanto eu vendia minhas palhas e quem as fazia. Achou caro quando lhe disse que custavam 2 reais cada, "com dois reais eu compro um pacote de biscoito". Brincava.

Ficamos ali por uns 40 minutos conversando sobre um monte de coisa e quando perguntada sobre o pai e a escola ela sempre fugia do assunto e falava sobre outras coisas. No final nos despedimos e continuamos na praia tentando vender os nossos doces. Helena ta sempre por lá junto com muitas outras crianças, muitas delas mais nova que ela, torcendo para vender seus chicletes de 1 real e para que outro "Gringo", como ela mesma costuma repetir, lhe dê 30 reais como no dia anterior. Pobre Helena, será que já ouviu falar em Manoel Carlos?

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