segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Rapaz, esse mundo é tâo doido!

Engraçado como as novelas da globo me fizeram acreditar que o Brasil era feito apenas de Ipanema à Lapa, com alguns toques de comunidades como Vidigal e rocinha e que Manuel Carlos era uma espécie de deus. Até aí nada mal, parecia está tudo em ordem me divertia em ver as pessoas do bairro incorporando no dia-dia os personagens das novelas de maior audiência. Mesmo sabendo que suas vidas eram novelas muito mais surreais, iam deixando aos poucos seus costumes serem trocados por aquelas fantasias televisionadas onde os núcleos pobres sempre eram na maioria das vezes, digamos, ricos. Isso mesmo! Eu achava que O Rio, e até mesmo o restante do Brasil, não tinha motivos pra falar de pobreza, não. O bairro Teotônio Vilela (Periferia situada em uma linda cidade do sul da Bahia chamada Ilhéus, lugar onde morei uma boa parte de minha infância e adolescência), este sim, sempre foi minha referência de miséria e esquecimento. O bairro foi formado nos anos 80 devido ao êxodo rural ocasionado pela dizimação das lavouras de cacau, provocada pela praga da vassoura de bruxa, de toda região cacaueira. Fato que acabou promovendo um impacto social que mudaria o destino de milhares de pessoas por todas as regiôes por onde a praga passou. Minha família, e uma boa parte das que nós conhecíamos, encontravam-se em situação parecida. Os Problemas iam desde a falta de água potável, rede de esgoto, escola, postos de saúde, moradia, (não vou aqui me referi à segurança porque, mesmo com todos os problemas que existiam no bairro, preferíamos não ter a presença da policia e suas técnicas nada convencionais por lá), emprego... Todos esses problemas que cada vez mais temos visto. Chegávamos da escola e enquanto almoçávamos víamos um Brasil pela TV que nos fazia sonhar com um país onde toda mulher fosse loura, todo carro wolkvagem e que todos os cidadãos fossem cariocas ou Paulistas, o restante do povão era chamado por adjetivos como Paraíba, Baiano e por aí vai. Os livros que eram distribuídos nas escolas públicas também não eram diferentes, negligenciavam toda uma história de sofrimento, lutas, conquistas, religiões, costumes e o que mais pudesse ser de nosso interesse. Lembro de alguns moleques do bairro perdidos em meio à mudança de opção religiosa que seus pais e avós eram levados a fazer devido a demonizacâo dos costumes Afros pela igreja; e lembro também das meninas tentando deixar seus cabelos, tidos como ruim pelos amigos e até mesmo pelos pais, parecidos com o da atriz principal da novela das seis, sete, oito ou com os da Xuxa. Nunca se fizeram tantas chapinhas e se venderam tantos cremes na Bahia.
Na hora do almoço ficávamos lembrando do peito de peru anunciado pela TV. Nossa!!! Aquele panetone devia ser tão gostoso! E aquela casa onde os filhos do ator principal moravam era um espetáculo! Todos aqueles brinquedos, roupas bonitas, hum mm!! E aquele candidato a presidência, esse sim deveria ser o presidente do Brasil! Assistia àqueles comerciais e novelas enquanto comia meus dois pães com manteiga e um pouco de café com cada vez menos leite. Minha mãe comia o dela enquanto sonhava com uma cozinha parecida com a que Regina Duarte contracenava ou com o marido que o Antônio Fagundes ou o Tarcísio Meira interpretava. Na verdade eu sabia que existiam famílias com casos bem mais difíceis na mesma rua onde eu morava, não eram poucas as estórias que escutávamos sobre crianças com anemias, verminoses, cólera, espancamento de filhos e mulheres por parte de pais alcoólatras, desempregados e desesperados. A sorte de muitos que ali moravam era que existia abundância de peixes nos rios, de mariscos nos manguezais, de frutas no pouco da mata atlântica que ainda existia e muita, muita criatividade popular para vencer as dificuldades. Não foi fácil, mas sobrevivi e hoje me encontro há dois anos morando na cidade do Rio onde quase todos os dias vejo o quanto esconderam de nós. Nos fizeram acreditar em uma cidade dita maravilhosa, onde tudo girava em torno da praia, futebol, Bossa nova, Carnaval, mulheres ditas lindas e das noites movimentadas de casas cada vez mais noturnas. Não. Não é só isso. A geografia do rio não consegue mais esconder a magnitude dos seus problemas. Tiraram-nos o direito de ver o quanto somos pobres e famintos, nos levaram a acreditar que éramos cafonas, ridículos. Fizeram-nos salivar com as imagens de mesas fartas e coloridas, tentaram nos deletar através da vinculação dos costumes de uma minoria. Não quero aqui parecer que estou sendo xenófobo, adoro a antropofagia poética da tropicália, adoro deglutir e vomitar coisas novas, mas daí a nos impor padrões e nos tirar o direito de saber o rumo que as coisas estavam tomando, não, isso eles não podiam fazer. Soa até meio ingênuo ou maluco, depende do ponto de vista de cada um, estar dizendo isso, mas parece que nos esconderam o crescimento das favelas, os desfalques promovidos pelos nossos políticos e banqueiros em estado de contínua festa, a expansão da violência e diversos outros problemas para poderem usarem logo depois como moeda de troca no jogo sujo da manipulação política e para estampar as páginas de jornais cada vez mais ricos e felizes com a quantidade de "notícias" para divulgarem. Como diz lá na Bahia meu avô Antônio Queiroz com seus 85 anos de pura sabedoria: Rapaz, esse mundo é tão doido! E que me perdoe a gramática por assassiná-la, vamos pra frente.

sábado, 8 de novembro de 2008

Fumaça

É mais válido cometer alguns erros do que não errar por nunca ter tentado. Seguindo essa filosofia várias descobertas foram feitas, reinos construídos, amores conquistados, alguns foram à ruína e muita história foi feita. Não vou usar aqui a frase clichê de quê o que fica pra história não são os erros cometidos e sim as vitórias conquistadas justificando assim as investidas da sagrada Igreja em nossa história e as decisões maléficas tomadas por países imperialistas. Não, deixa isso para os nossos políticos populistas e para os livros de história. Os erros aqui levantados são de caráter pessoal, não dependendo deles a vida de outra pessoa que não seja a sua. São esses mesmos erros que nos fazem valorizar os caminhos percorridos, os pôr-do-sol mágicos, as aventuras desplanejadas, os amigos de sempre e os pela vida conquistados, as paixões, a descoberta do amor, a solidão necessária... Vendo assim até parece mais um desses textos de auto-ajuda que circulam pela rede. Por mim tudo bem, não me envergonho em dizer que essa tem sido a receita de minha caminhada. Sou personagem de um filme com cenários dos mais variados, desde locações em algumas periferias, uma família amável, morada em barraquinho de tábua, passagem por diversos empregos... viagens pelo país, e uma certa falta de medo de mudanças. Num outro capítulo desse filme já me encontro lançando-me em aventuras sem roteiros prévios, me agarrando muitas vezes a um otimismo incorrigível e uma aparente irresponsabilidade, me jogando no luxo e no lixo. O diretor desse filme me proporcionou contracenar com pessoas, cenários e situações dos tipos mais variados me preparando para um capítulo no qual continuará dividindo comigo a autoria do roteiro.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Um Rolé pela Lapa.

São 23h30min de uma noite de sábado e não encontrando solução para a confusão de pensamentos que povoam minha mente decido assim me aventurar em uma caminhada até a Lapa, pé que não anda não toma topada, de Santa até lá é um pulo. Chegando à Lapa me deparo com uma mistura de tribos que impressiona a qualquer olho menos acostumado. São moradores de rua amontoados em baixo dos arcos assistindo os turistas e cariocas de todas as zonas e classes da cidade se misturarem às prostitutas, malandros, rastafáris, rockers, emos, moleques cheirando cola, salseiros, a galera do samba, crianças vendendo chiclete, travestis, vendedores de cerveja, caipirinha, cigarros, red -bull com wisks não muito confiáveis, cachorro-quentes (os já famosos podrôes da lapa), psicotrópicos e muito mais. Ufa! Tudo isto misturado com diversos ritmos, estilos, cores e odores, putz!!
Casas como Circo Voador, Fundição Progresso, Teatro Odisséia, Cine Lapa, Carioca da Gema, Brasil Mestiço, Democráticos... juntas com uma dezena de barzinhos para todas as classes, fazem da Lapa o lugar mais procurado pelos baladeiros de plantão. Que caldeirão cultural do caralho!!! Andando pelas ruas não dá para discerni que tipo de música está tocando, de vez em quando se ouve uma risada mais alta ou uma freada brusca, não conheço nenhum kaos mais organizado.
Não tendo encontrado nenhum rosto amigo decido voltar para casa, afinal de contas, nem para uma cerveja eu tinha. Pego então a Mens de Sá e sigo até um pouco antes da praça da cruz vermelha onde pego uma transversal chamada Rua dos Inválidos. Inválidos é o Caralho! Volto e pego outra chamada Resendes e logo depois estou na Riachuelo, atravesso a rua e dou inicio a escalada de Santa através da Rua Monte Alegre (nome que sempre me pareceu muito apropriado para Santa Teresa). Na verdade a caminhada não serviu lá pra muita coisa, novamente em casa, me pego pensando em como me dar bem no Rio. Enquanto isso, agora em minha pequena varanda que dá para a Comunidade da Mineira, a fumaça do meu cigarro se mistura com os tiros, risadas e os sons da noite embalados pelo Blue -Line do Massive que emana dos fones do meu disc-man.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Se é para morrer que seja de morte morrida.



Então, o que vc prefere? prefere morrer de morte morrida? Aha Aha Aha!!! Sei nâo hein! Está cada vez mais difícil poder fazer tal escolha, a opçâo por morte matada nos é oferecida como uma tendência que se espalha. Te tiram o direito de escolher o lugar, a forma e até mesmo o destino que darão aos teus restos. Poderá acontecer enquanto dormes, vai a padaria, compra um jornal, toma o ônibus, enquanto espera a namorada sair do trabalho, ou faz uso de algum servico publico, é uma realidade constante. Viver, na maioria das cidades brasileiras, trasnformou-se em uma tarefa cada vez mais difícil, transformaram-nos em alvos urbanos, sujeitos a todo tipo de ataques físicos e morais. Vou usar aqui o exemplo da "cidade maravilhosa", todos os dias sâo disparados milhares de tiros pela cidade do Rio de Janeiro, o IML convive com estatísticas alarmantes. Os tiros pela cidade são tantos que com o tempo vc aprende a reconhecer até mesmo o calibre das armas somente pelo som delas emitido, para muitos já se transformou em uma situaçâo banal estar sentado em frente a tv assistindo jornais cada vez mais parecidos com o programa humorístico casseta e planeta e escutar pela janela os disparos de um morro para o outro. Ah, esse é de fuzil. Enquanto durmo, o som das balas saindo de armas cada vez mais potentes se misturam aos meus sonhos e me levam para uma zona onde me vejo fugindo da polícia através dos becos de uma favela que pela tv. Nâo é difícil ver as balas traçantes disparadas por fuzís cortando a noite. Elas parecem estrelas cadentes, cometas riscando o céu cada vez mais escuro que separam comunidades divididas pelo tráfico, como Morro da Coroa e Morro da Mineira; Falette e a favela dos Prazeres... e por aí vai, todos possuem os seus inimigos, o que acaba sobrando para todos que estâo em volta, inclusive os próprios moradores dessas comunidades. Enquanto nossos políticos dormem em camas cada vez mais suntuosas eu, também alvo dessa guerra, vou me abaixando na janela do meu quarto enquanto assisto a mais um show pirotécnico patrocinado pelas milícias rivais à comunidade onde moro, dessa vez eles foram pontuais, meia-noite em ponto o céu foi pintado durante dez minutos de diversas cores remetendo-me e, a todos que àquela hora estavam acordados, à marquês de sapucaí e suas ostentaçôes transmitidas ao vivo para um público cada vez mais alienado.