sexta-feira, 24 de abril de 2009

Um olhar.




"Pé que não anda não vende". Essa foi uma das observacôes feita por Jandira, mâe de cinco filhos, descendente de pataxós e moradora de uma pequena casa dentro de uma área indígena situada na costa do descobrimento, no trecho entre Caraívas e Ponta do Corumbal. Ela afirmava que chegava a andar por dia cerca de 30, 50, 80 km para tentar vender em Trancoso, Praia do Espelho, Arraial e Porto Seguro os artesanatos que ela e suas filhas produziam. "...e se agente não fizé isso agente passa fome, aqui tudo precisa do dinheiro e a coeita aqui num é muito boa, a terra aqui é de areia. Boa é as terras lá pra traz, onde tem aquele monte de eucalipto plantado". Repetia Jandira referindo-se as plantacôes de eucalipto da Aracruz celulose que beiravam quase toda faixa costeira daquela região, no horizonte não era difícil avistar o grande muro verde. Enquanto passava a linha por mais uma semente ela me dizia que alí era uma casa de mulheres trabalhadeiras e tentava me explicar o porque há dois meses não ia a cidade vender. Mostrando sua perna direita me dizia que teve um dia que seus pés começaram a desenvolver umas espécies de Bolhas e assim que essas iam estourando nasciam feridas que deixavam a pele lateral dos calcanhares em carne viva impedindo-a de promover qualquer caminhada. Quando procurou os médicos estes a informaram se tratar de bactérias que desenvolvem-se nas areias quentes e escura que fazem parte dessas regiões próximas ao mar. As caminhadas através das picadas até as cidades eram quase sempre pela areia quente beirando as praias e, devido a repetiçâo longa e diária desse hábito pelos moradores dessas regiões, fica-se mais sujeito a este tipo de contaminacâo". A informou o doutor. "...depois ele me receitou uma pomada e por dois meses eu conseguir pegar de graça no posto, mas esta semana meu marido passou lá duas vezes e eles disseram que nâo tinha. A pomada custa 40 reais e se o senhor puder comprar alguma coisa pra poder me ajudar..." E assim Jandira ia me convencendo quando derrepente percebi que uma criança estava atrás da cortina nos espiando, era uma menina de uns 3 a 4 anos e parecia um bicho do mato de tão desconfiada que era, ficamos ali conversando e por uns 40 minutos ela continuou lá nos espiando através de uma brecha na cortina.
Tentei puxar um papo com ela e nada, nenhuma das minhas tentativas estava dando certo, entâo me lembrei que havia comprado alguns biscoitos da ultima vez que tinha passado por um vilarejo e com eles, só com eles consegui fazer ela sair do quarto. Aos poucos fui convencendo-a aceitar alguns em troca dela me dizer seu nome, era lindo vê-la ali pertinho. Os biscoitos ela aceitou mas seu nome foi a mãe quem me disse, chamava-se Adriele e era a caçula de seis filhos. Enquanto ela comia timidamente me olhava e baixava a cabeça de novo, era como se nós fossemos algo estranho, ela devia imaginar que éramos bichos da cidade, estranhos.
Acabou que compramos alguns brincos e colares da Jandira, deixamos os pacotes de biscoito que tínhamos, pagamos os cocos que bebemos e, enquanto me despedia delas, me ocorreu que jamais iria esquecer dos olhos daquela criança. Maria e eu voltamos pela trilha até a praia e continuamos com a nossa caminhada até a aldeia que ficava um pouco mais pra frente, já pertinho de Corumbal. Tínhamos conseguido alí na casa de Jandira a água de coco que queríamos, artesanatos e ainda compartilhado um pouco de sua luta pelo tâo suado pâo de cada dia para a numerosa familia que ajudava a sustentar.
Fotos By Maria Therese

2 comentários:

Bau disse...

Quero ver para onde vamos nós quatro...lugares bem inusitados como nessa sua viagem!! seu blog é muito legal...parabéns!!!

Fabio Tihara disse...

Belo texto Daniel e belas fotos Maria!!!Parabens!!!abraço do finoelegante...