segunda-feira, 27 de abril de 2009

fragmentos

Esse mês passei por duas situaçôes que me renderam duas estórias muito boas para serem contadas aqui, no blog desse urbano alvo cabral. Sabiam que na Bahia cabral é um gíria utilizada quando se trata de medo? Pois é, cabral é derivado de cabreiro, outra palavra que tem o mesmo significado. Então, a melhor traduçâo da expressão alvo cabral é alvo com medo, cabreiro das mil e umas tretas que acontecem na cidade. É exatamente esse o tema dessa estória que tenho para contar. Acontece que quando se vive em situaçôes extremas o individuo acaba sendo obrigado a desenvolver uma certa malícia, uma manha, os códigos que o permitirá sobreviver nesse mundo de cão que muita vezes se tornam as periferias. Pois muito bem, achava eu que por ter crescido em comunidades nada tranquilas do interior da Bahia sabia identificar qualquer tentativa de ser passado para traz, ou de ser metido (gíria que significa ser roubado), e com essa malícia poderia transitar por todos os lugares . Nesses dois anos que moro no Rio tentaram me roubar somente uma vez e, mesmo assim, desenrolei com o moleque que acabou desistindo, dei sorte. Pois no sábado passado acordei cedinho e fui dar um rolé com minha namorada numa feira de velharias que acontece na praça XV para ver se encontrava alguma coisa retrô e barata que nos interessasse. Pegamos um micro-ônibus em Santa e quando descemos no Castelo, zona central do Rio, logo depois de atravessarmos duas ruas, fomos abordados por um cara que afirmava estar com uma arma por baixo da camisa. " Perdeu! Perdeu cumpade! Passa tudo que tá na sua bolsa e num conversa muito não!" Na hora fomos meio que pegos de surpresa, quando eu o vi já estava muito próximo de nós. Na hora foi isso mesmo que falei pra ele: " pô irmão, você me deu até um susto, quê que tá pegando? Pô que parada é essa aí de perdeu parceiro, eu tô aqui mais duro que você!" O cara, meio sem saber o que fazer, botou um dos braços em meu ombro para que os policiais que estavam passando na viatura não percebesse o assalto. Nessa hora ele quase me matou com seu insurpotável bafo de cachaça, putzz!! Minha namorada percebeu que eu estava desenrolando e adiantou um pouco os passos, afinal, ela estava com toda nossa grana, e nâo era pouco, naquela manhâ havíamos saído com a intençâo de pagar algumas contas. O cara já nâo sabia se estávamos juntos ou nâo. Nesse momento ele me pediu que lhe desse o que tinha na carteira. Eu, já disconfiando da inexistência de uma arma, atrasei um pouco o passo e lhe respondi brincando que quando visse quanto eu tinha na carteira ele iria até dar risada. E foi isso mesmo o que aconteceu, naquela manhã havia me restado da noite anterior apenas 2 reais na carteira e quando ele confirmou este fato, reclamou: " ... que porra é essa, tu tá com 2 reais na carteira, tá de sacanagem comigo! Abri os outros bolsos aê!". Eu abri todos os bolsos da carteira e ele constatou me esculanchando que isso era tudo o que eu tinha. Então ele pegou os dois reais e me soltou, logo depois atravessou a rua de volta sei lá pra onde, menos de um minuto e o cara já tinha sumido. Meio não acreditando no que havia acontecido peguei na mâo de minha gata e fomos em direcâo a feira da praça XV. "Dessa nós escapamos." brincava. Ela estava mais assustada que eu, precisava de uns minutos para se recompor. Chegamos à feira e, depois de uma meia hora de cara com todas aquelas antiguidades sendo vendidas ali, percebi que alguém me abraçou, era o mesmo cara! " Porra, vc de novo!" falei. O cara, num tom super malandro me falou baixinho: " Eu tô ligado que a grana estava com a gata, nessa vc se deu bem". da mesma forma que apareceu sumiu entre a multidão. "Caralho, que porra é essa!". Olhei em volta pra ver se ele estava nos observando. Nada dele, era como se estivesse em algum lugar a nos observar. Compramos algumas bugigangas baratas e de qualidade e na volta até o ponto de ônibus para Santa Teresa passamos perto de um prédio onde encontrava-se uns 10 a 15 moradores de rua, percebí que dois deles nos olhava enquanto conversavam com outros. Maria já ia atravessando a rua que dava acesso ao prédio quando eu a alertei disfarcadamente do perigo que seria passar por lá. Continuamos andando pelo canteiro que separavam as duas pistas e quando nos aproximamos do ponto atravessamos a rua. Tivemos sorte que o ônibus estava passando naquele exato momento. Demos a mão e, uma vez sentados, ficamos pasmos com o fato de alguns dos caras que estavam em baixo da marquise estarem nos dando tchau. Meu Irmão!! Virou brincadeira, nunca me senti tão seguro como dentro daquele ônibus.

Um comentário:

Fabio Tihara disse...

Já dizia o saudoso Bezzera..."malandro é malandro e mané é mané" mas contudo,entrevias e entretanto é melhor ser mané...porque malandro ainda não tem peito de aço...