A febre do Lixo



Sacolas plásticas e papéis substituindo flores, presos às cercas, fios elétricos, galhos das árvores, formando redemoinhos. Pedaços de isopor, cordas, redes, garrafas pets, tampas, sandálias aos milhares, tudo muito lentamente reduzido a micropartes colorindo a areia das praias. Poucos dos que nasceram a partir dos anos 2000 conheceram uma praia de areia alva, um rio de águas limpas, cestas de vime, sacos de pano, ruas livres de carros, motocicletas, lixo e esgoto. No verão de 2031 as cidade da região cacaueira assistiriam uma corrida sem precedentes pela busca de lixo. De onde haviam surgido tantos coletores? Quem estava por trás daquela jogada? Nas esquinas comentavam-se sobre o preço do plástico, do vidro... histórias sobre coletores que haviam feito furtunas coletando artigos específicos como gimbas, tubos de imagem, tampas de creme dental, shampoo, embalagens da rede Eutephodo, cerdas de escova de dentes e orelhas. Existia cotação para tudo, gerando um certo suspense em torno de quando e qual seria a próxima corrida. Na terça feira passada estavam oferecendo 0,50$ por qualquer recipiente plástico com tampa. A especulação levou os coletores a investirem na busca em outras cidades, caravanas eram organizadas. Os Jornais intitularam o acontecimento como A FEBRE DO LIXO! Em três meses as cidades de Itabuna, Buerarema, Ilhéus e Uruçuca haviam se convertido em cidades livres de lixos sem donos. Haviam rumores de que a FEBRE DO LIXO estava sendo promovida e financiada por uma magnata de São Paulo. Segundo os jornais ela havia promovido o mesmo em Istambul, Marrakech, São Luís, Lagos, Caracas e Bogotá. A sociedade se dividia em teorias, bares vendiam cachaça, igrejas a salvação. Expedições eram organizadas atendendo previsões, boatos e apostas. Dependendo da cidade podia-se coletar, por pessoa, até 250kg de material por dia, o que dependendo da cotação chegava a render de 400 a 600 reais. Nas Estradas e rodagens adultos e crianças de idades incertas, empurrando adaptadas carroças, montados em animais, bicicletas. A febre do lixo seguiria até o inverno e encheria o bolso de pastores e comerciantes.

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