Burburinho escandinavo







     Segunda feira, 14 de julho de 2017, Estocolmo, Suécia. Sentado na praça de alimentação do shopping Ringer dou início ao exercício de descrição através do qual um dia me tornarei apto a viver fazendo o'que mais me alegra: Escrever. Pego o iPhone 6s no bolso do meu surrado skinny preto e consulto as horas, são 13:45. Lá fora segue cinza, no aplicativo acusa 16 graus. Em duas horas terei que pegar as meninas na escola em Asppuden. O Ringer, como é conhecido, é um centro comercial que ocupa todo o primeiro piso de um oitentoso edifício de seis andares localizado na esquina do cruzamento entre as avenidas Gotgotan com a Ringvagen, no bairro de Skanstull, no Sodermalm, zona hype da cidade. Um pouco antes de entrar no espaço passei numa casa especializada e cambiei 120 euros por Kronas suecas. Logo em seguida, já no mercado do Ringer, elegi algumas opções do buffet, pesei, pagando somente pelos dois cream crackers sabor queijo que minhas filhas às vezes me pedem.
Com acesso através das duas avenidas, os  amplos corredores, de 4mts de largura por uns 60m de comprimento cada um, nos conduz através de uma dezena de pequenas loja de serviços, loteria, casas de estética, floricultura... etc. Levando-nos até o centro. Aí estão situados os espaços maiores como H&M, dois concorrentes, uma loja de calcados e um supermercado da rede ICA, todos eles dispostos circularmente, como numa ferradura, favorecendo assim um trânsito contínuo diante das transadas vitrines. Chegando aí basta escolher, caso queiram, um entre os seis pequenos e charmosos espaços centrais ocupados por dois cafés, uma pizzaria, um sushi e dois restaurantes especializados em carnes e saladas. Estes últimos juntos compõem uma metade do núcleo, na outra instalaram uma dúzia de elegantes mesas e cadeiras paralelas a uma arquibancada de madeira reciclada, na cor kraft, de uns 6 mts de comprimento, composta por 3 firmes níveis, contando, cada um, em intervalos de 3 mts, com quatro pequenas e retangulares mesas na cor verde abacate.  A arquibancada conta com três acessos, meio degrau, instalados um no meio, e um em cada extremidade do dispositivo e dois no segundo conduzindo ao terceiro nivel. Cada fila dispõe de uma mesa dupla e trazem todas elas, incluindo as individuais, uma sutil e cálida luminária na extremidade direita de sua superfície. Para utilizá-las basta cuidadosamente, como faço agora, baixar um pêndulo plástico fazendo um click. 
       Encontro-me na terceira mesa da segunda fila. A salada de salmão defumado com tomate seco e azeitona pretas que escolhi combinaram muito bem com os três tipos de grãos que, juntos com os espeto, frango agridoce e legumes, compõem majestosamente o meu almoço de hoje. Embaixo da mesa minha velha mochila onde hoje trago: O Primeiro Homem, de Albert Cammus. Um envelope Zip de plástico transparente contendo alguns documentos, um cartão do swedish bank, meu passaporte e o recibo envolvendo o dinheiro que mais cedo troquei na casa de câmbio. Além disso carrego também, para minha alegria e conforto, as chaves do apartamento de Roberto, do de Irene, e o caderno Rhodia o qual agora pratico este exercício. 
A praça de alimentação segue tranquila com sua rotina, suporta bem as horas de Rush, é certo que todos que trabalham aqui já presenciaram ou viveram alguma situação comuns a esses espaços. Se os observarmos bem notamos que às vezes cochicham sorrindo, quase que cinicamente. A rotina lhes iam aos pouco mecanizando à jornada, rotulando, os levando a distinguir social e psicologicamente os que por aqui diariamente sentam.
Mais adiante, no início do corredor que dar para a Ringvagen, através de uma escada ou o elevador, ambos instalados ao lado da casa de jogos de azar, se tem acesso aos sempre impecáveis WC. Ali na entrada do banheiro foram instaladas duas meias portas de vidro que se abrem após o pagamento de dez centavos, pagos quase sempre encostando o cartão de crédito num pequeno dispositivo eletrônico instalado ao lado da porta. Do lado de dentro, sentadas em confortáveis poltronas, duas imigrantes, uma de aparência Árabe e outra russa, mantém as regras funcionando. È muito provável que ambas chegaram a Suécia refugiando-se pelos mesmos motivos. Não era raro encontrá-las mal humoradas ou com um olhar febril e distante. Tentei inutilmente uma vez pedi-las para usar gratuitamente o toalete, não trazia nada em moedas e meu cartão não estava habilitado, o que foi negado, levando-me a caminhar duas quadras para utilizar furtivamente o banheiro de um bar. 
Como havia dito acima: O shopping parece bem tranquilo: Alguma crianças em frente a vitrine da loja de brinquedos, uma família aguardando enquanto um imigrante curdo lhes faz a cópia da chave; A sempre alegre senhora da floricultura com seu avental, luvas e uma espécie de colher conversando com alguém enquanto trocava umas plantas de vasos; Oito pessoas formando Uma pequena fila no guichê da casa de apostas, dois rapazes provando sapatos, quatro ou cinco mães com seus seus carrinhos parados( é muito comum encontrar homens aos pares fazendo o mesmo), enquanto esperam um grupo misto de crianças passarem felizes aos gritos e empurrões em direção do mercado. Tudo indicava que parecia estar novamente de moda gerar filhos. O sistema seguia sendo, apesar de estar em prática uma escalada da extrema direita, prestativo, equânime, acessível e funcional.

A minha esquerda, na fila abaixo, duas elegantes mulheres conversam tranquilas acompanhadas por café e croissant. Noventosas, como se diz na linguagem atual, independentes e donas de um sorriso provocador.  Provavelmente trabalham em um dos muitos escritórios de design, galerias de arte ou nas lojas cool da vizinhança. Não é raro cruzar com Hipsters de todas as classes e ocupações desfilando pelas ruas do bairro. Os Cafés estäo quase sempre cheios favorecendo uma atmosfera cosmopolita e cultural. Sempre que posso visito os transados second hands da Bondgatan, o skinny que uso foi garimpado no Judit`s, estava perfeito, paguei doze euros por ele. É muito provável  que as duas aqui abaixo fazem parte dos amantes dos seconds hands da cidade. 
Duas mesas a direita, na fila onde estou, uma mulher de cabelos loiros cacheados, formalmente vestida, assiste um vídeo no celular após ter devorado seu filé de peixe acompanhado com puré e coração de alcachofra, nâo é a toa que está satisfeita, já o havia visto sendo escolhido por outras pessoas, a expressão de satisfação é sempre a mesma. Juro que volto aqui um dia desses e o provo. Não está me sobrando quase nada do salário, preciso encontrar um segundo emprego ou trocar o meu no restaurante por algo mais bem remunerado. Tirando o aluguel do quarto que mantenho em midsommar e a pensão de minhas duas filhas o que sobra mal dar para ir ao cinema. Terei que procurar um quarto três estações mais distantes do centro e economizar assim uns trocados mais para comprar, quem sabe, uma caminhonete usada e sair com minha namorada viajando pela Europa. Talvez seria uma boa idéia tirar um dia para entregar uns currículos pelo Soder, as gorjetas devem ser melhores que meu salário, com isso poderia ir um final de semana explorar as ruas de Berlim, ou comprar um computador, editar meus textos, instalar uns programas e praticar para tocar como DJ. Estou de saco cheio do meu trabalho, já aprendi o bastante e posso de olhos fechados preparar um denso e saboroso Café latte tão bom quanto esse que o casal de suecos duas mesas à minha direita estão frivolamente tomando enquanto a sua frente dois deliciosos muffins os aguarda. Estão discutindo algo prosaico e corriqueiro, capaz que sobre o passeio que fizeram no arquipélago com a família durante o final de semana. Há barcos por toda parte: De passeio, transporte, pequenos, grandes, industriais, turísticos, competição, transformados em restaurantes, hotéis, clubes, escolas… a herança viking de navegação segue pulsando. 
Percebo agora que uma senhora com aparência de bibliotecária escolheu uma mesa no centro esquerdo do salão e, enquanto lê o Daggens post, com seu dedo menor elegantemente esticado, encosta lenta e calculadamente na boca uma xícara de chá fumegante. Parece estar um pouco incomodada com algo, gira a cabeça para o lado onde estou tentando identificar o motivo do choro de uma criança, voltando em seguida sua atenção a leitura do suplemento cultural. 
A minha esquerda, na fila de cima, um homem branco, na casa dos 70, levanta-se educado, coloca seu sobretudo cinza e desce com passos firmes os degraus que o conduz ao salão, levando consigo a bandeja com o que sobrou de seu almoço sorvendo-a numa lixeira ali próxima ao salão, deixando em seguida o prato e os talheres numa prateleira metálica com rodinhas, ao lado do espaço onde os restaurantes gratuitamente disponibilizam uma torneira e copos limpos para que os clientes se sirvam de boa água. É muito comum encontrá-la e consumi-la assim, direto das torneiras, um luxo.

Meus tenis incomodam um pouco, me equivoquei uma vez mais na escolha, são um número menor. É o terceiro par que compro errado em pouco mais de um ano. Meus pés já não cabem no 42 como minha vida já não cabe nos 30. Nesse momento uma garçonete passa recolhendo as sobras antecipando-se a duas gentis enfermeiras do St Eriks oferecendo-lhes uma mesa. Ao lado delas um funcionário da companhia de metrô confere o menu das pizzas. Reconheço seu uniforme, traz preso à cintura uma máquina usada para conferir nos vagões a existência de créditos nos cartões de passagem. Ainda carrego comigo o comprovante da multa de 1,546 coroas que, por estar distraído lendo Cammus, me aplicou faz 3 semanas.
Na mesa ao lado da bibliotecária, ao que tudo indica,  dois testemunhas de Jeová conferem juntos uma revista especializada em viagens e discutem discretamente alguma coisa. Será que pretendia deixar a igreja? Jean Meslier o fez heroicamente em sua época registrando tudo num imprescindível diário para a posteridade. Que enorme falta nos faz um Voltaire!  Soube por uma amiga que os primeiro evangélico que chegaram ao Brasil nos anos 20 vienheram expulsos daqui pelo governo. Não cabiam no século que se iniciava e ademais os nórdico possuem um panteão muito mais interessante e antigo com seus próprios mitos.
Falando em interessante: Na mesa ao lado dos escravos da Bíblia, um senhor calvo, com aparência de viajante, com a mão esquerda ajusta os óculos acima do nariz enquanto usa a outra para tirar com uma colher um bom pedaço de seu bolo de chocolate com trufas, tragando-o distraidamente enquanto através das memórias viaja por terras distantes. Ao seu lado, ocupando uma mesa dupla, uma jovem mãe tenta inutilmente distrair seu bebê utilizando um celular enquanto conversa em outro. Um terceiro aparelho está em cima da mesa, provavelmente de uma amiga ou do pai que aguarda retornar do toillet. O carrinho foi estacionado de forma a não atrapalhar o transito do acesso esquerdo a arquibancada onde estou. 
As cenas iam assim repetindo-se através da tarde com a chegada ou saída de algum novo passageiro. Na Banca de jornais as manchetes seguiam explorando fatos como os resultados das eleições no Brasil e na Venezuela, a massa de refugiados nos campos entre França e Inglaterra, a saída deste último da União europeia, a morte aos 88 anos  de João Gilberto, uma entrevista com a Feminista negra Angela Davis, a condenação de mark zuckerberg pela venda ilegal de dados pessoais de milhões de seus usuários. E uma dezena de revistas especializadas em tecnologia, viagens, moda e glamour, Tv, comida veggie, decoração, crianças e os cada vez mais presentes animais domésticos.  
 Uma música ambiente soa preguiçosa dos speakers estrategicamente instalados em alguns pontos da área comum do shopping permitindo assim uma Harmonização ideal ao burburinho escandinavo. E assim dou por encerrado o meu exercício, guardo tudo na mochila, levanto-me e vou em direção a saída do corredor norte onde está localizada a estação de metro da Ringvagen, são quase 16hs, não quero me atrasar.

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