Giordano Bruno – Sobre o Infinito, o Universo e os Mundos

                     Ensaio sobre a defesa da lucidez

 Venice, 1591.     
                 
"Se eu, ilustríssimo Cavaleiro, manejasse um arado, apascentasse um rebanho, cultivasse uma horta, remendasse uma veste, ninguém me daria atenção, poucos me observariam, raras pessoas me censurariam e eu poderia facilmente agradar a todos. Mas, por ser eu delineador do campo da natureza, por estar preocupado com o alimento da alma, interessado pela cultura do espírito e dedicado à atividade do intelecto, eis que os visados me ameaçam, os observados me assaltam, os atingidos me mordem, os desmascarados me devoram. E não é só um, não são poucos, são muitos, são quase todos.
Se quiserdes saber por que isto acontece, digo-vos que o motivo é que tudo me desagrada, detesto o vulgo, a multidão não me contenta. Somente uma coisa me fascina: aquela em virtude da qual me sinto livre na sujeição, contente no sofrimento, rico na indigência e vivo na morte. Aquela em virtude da qual não invejo os que são servos na liberdade, sofrem no prazer, são pobres nas riquezas e mortos em vida, porque trazem no próprio corpo os grilhões que os prendem, no espírito o inferno que os oprime, na alma o erro que os debilita, na mente o letargo que os mata. Não há, por isso, magnanimidade que os liberte nem longanimidade que os eleve, nem esplendor que os abrilhante, nem ciência que os avive.
Daí sucede que não arredo o pé do árduo caminho, como se estivesse cansado. Nem, por indolência, cruzo os braços diante da obra que se me apresenta. Nem, qual desesperado, volto as costas ao inimigo que se me opõe. Nem, como desnorteado, desvio os olhos do divino objeto. No entanto, sinto-me geralmente apontado como um sofista, que mais se preocupa em parecer sutil do que em ser verídico. Um ambicioso, que mais se esforça por suscitar nova e falsa seita do que consolidar a antiga e verdadeira. Um trapaceiro, que persegue avidamente o resplendor da glória, projetando as trevas dos erros. Um espírito inquieto que subverte os edifícios da boa disciplina, tornando-se maquinador de perversidades. Oxalá, Senhor, os santos numes afastem para bem longe de mim todos aqueles que injustamente me odeiam".

 


Trecho extraído de uma tradução da EPÍSTOLA PREAMBULAR que dar inicio ao livro "Sobre o infinito, o Universo e os Mundos", escrita por Giordano 
PARA O ILUSTRÍSSIMO SENHOR MICHEL DE CASTELNAU. Inf




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