Das origens do Samba


     
Nascido na Europa durante a idade média, segundo alguns pesquisadores, por volta de 1091, o Carnaval, essa tradição universal mundana e redentora, ironicamente teria sido um subproduto da igreja. Naquele período o Clero decretava a Quaresma, quarenta dias de penitência antes da chegada da Semana Santa, para que as pessoas se livrassem dos prazeres da carne (tanto nutricional quanto física), levando o povo logo a encontrar uma forma de se divertir e se entregar aos prazeres da vida antes do começo do fastidioso período de absoluta abstinência. A Quaresma tinha seu início demarcado fixamente em uma Quarta-feira e passou a ser antecipada por uma terça-feira de grandes festejos. O Carnivale deu origem então a Terça-feira Gorda e ao próprio Carnaval, que com o passar dos anos ganhou mais uns dias de festa devido a alegria e animação dos participantes. Dessa forma a data se espalharia pelo mundo como uma festa eminentemente popular, colorida, criativa, alegre e, apesar de sua origem européia, seria no Brasil, Venezuela, Cuba, Trinidade e Tobago, Haiti, New Orleans, entre outros países de cultura Africana, que ganharia raízes mais profundas.
Segundo pesquisas histórica ele chegou ao Brasil em meados do século XVIII, mais precisamente em 1723, por meio de imigrantes das Ilhas da Madeira, Açores e Cabo Verde. Foi através do entrudo, tradição carnavalesca mundana, travessa e atlética , na qual pessoas e famílias inteiras se divertiam em verdadeiras batalhas campais correndo pelas ruas centrais da cidade atirando-se mutuamente bexigas d’água perfumadas, cabaças de farinha, polvilho, cal, alvaiade, pó-de-mico e até misturas mal cheirosas providas do lixo. Entre todas as travessuras e peraltagem o principal elemento era o limão-de-cheiro. Este sim era o rei do corre - corre e das contendas envolvendo desavisados, enfurecidos proprietários de imóveis e a municipalidade. Produzido artesanalmente durante as semanas que antecipavam o período pré-carnavalesco o limão-de-cheiro era feito de cera e tinhas as dimensões de uma laranja na qual dentro se colocava água pura, ou com corantes, e até mesmo urina, levando a prática a ser proibida através de leis municipais.
    A paixão do povo brasileiro pelo carnaval é imensurável e, mesmo que existam aqueles que declaradamente não gostam das comemorações, é quase impossível nâo render-se aos pequenos blocos ou a multidão festejante nas ruas. Quem já foi a Bahia sabe. Terra de rítmos, temperos, pescadores, poetas, epopéias, Dorivais, cadências e alegria de viver. Ali o carnaval com seus homéricos foliôes resistem da quarta-feira anterior à Quarta-feira de Cinzas!! Há quem diga que na verdade, como Vadinho, que a lambança tem inicio final de dezembro e vá até meados de março.
Entretanto é preciso viajar pelo tempo e pela história para perceber o enorme processo evolutivo que o carnaval percorreu até o surgimento das escolas de samba Cariocas. Desde a chegada ao Brasil do entrudo, passando pelo Zé Pereira, os retirantes nordestinos, as Sociedades, os cordões, os corsos, os bailes de carnaval, os ranchos, os blocos e também pela riqueza musical durante o período momesco. Por mais que o carnaval se caracterize pelo uso de máscaras e fantasias, a grande alma da festa será sempre a cadência músical. O carnaval Baiano, Pernambucano e Carioca germinariam ricos e fértis emergenciando seu posterior maior expoente, o Samba. Até o ano de 1901 as músicas do período carnavalesco eram as mesmas que faziam sucesso durante o ano e tinham procedências de vários ritmos e países. Tocavam-se músicas francesas, portuguesas, americanas (como cakewalks), as cubanas habaneras, os maxixes, chulas, valsas e schottishes.

A grande mudança se daria graças à maestrina Francisca Edwiges Gonzaga do Amaral, popularmente conhecida como Chiquinha Gonzaga, que compôs especialmente para o carnaval de 1901 a canção “Ô abre alas”.

Ó abre alas!
Que eu quero passar
Eu sou da lira,não posso negar!
Ó abre alas
Que eu quero passar
Rosa de ouro
É quem vai ganhar!


    A composição inauguraria assim uma nova etapa no carnaval e um novo gênero musical que atravessaria décadas a fio num estrondoso sucesso passando a ser chamada marchas carnavalescas. No embalo de “Ô abre alas” vieram tantos outros sucessos.
“Quem inventou a mulata?” de Ernesto de Souza balançou a cidade em 1903 e três anos depois era “Vem cá, mulata”, musicada por Arquimedes de Oliveira e versada por Bastos Tigre, que sacudindo as ruas da cidade por onde passava.


Vem cá, mulata
Não vou lá, não.
Vem cá, mulata
Não vou lá, não.
Sou democrata
Sou democrata
Sou democrata
de coração.

Os Democráticos
Gente jovial
Somos fanáticos
Do Carnaval
Do povo vivas
Nós recolhemos
De nós cativas
Almas fazemos.

"Ao povo damos
Sempre alegria
e batalhamos
pela folia.
Não receiamos
Nos sair mal
a letra damos
no Carnaval

    Não tardaria chegar às composições carnavalescas as críticas e paródias aos políticos poderosos da época. Como “No bico da chaleira” do maestro Costa Júnior sob o pseudônimo de Juca Storoni, que satirizava os bajuladores que viviam ao redor do senador Pinheiro Machado, grande comandante do partido Republicano (o maior da época). Grande sucesso de 1909 que deu novos significados a expressão pegar no bico da chaleira, ou seja, puxar-o-saco ou adular. O próprio Pinheiro Machado foi alvo de outro grande sucesso carnavalesco de 1915, “Caboca de Caxangá”, do poeta Catulo da Paixão Cearense.

Iaiá me deixa subir nesta lareira,
eu sou do bloco que pega na chaleira”
“Mestre Pinheiro, seu Machado
Tome tento,
Não te metas que o momento
Não é mais de brincadeira.
Estamos sem prata, sem níquel,
sem dinheiro,
pode o povo brasileiro
virar pau de goiabeira.
Vem cá, Pinheiro, vem cá
e deixa de resingar

     Mas, foi pouco tempo antes, mais precisamente três anos que nasceria o gênero de maior importância para a história do carnaval e que se popularizaria como ritmo oficial do período e marca nacional como identidade brasileira no exterior. No quintal da casa da baiana e mãe-de–santo, Hilária de Almeida, a Tia Ciata, florescia o nosso samba. Na residência que ficava na Rua Visconde de Itaúna, número 117, próximo a Praça Onze, as festas feitas de maxixes, chulas e batuques costumavam começar as sextas à noite e só acabavam na manhã de segunda-feira. Lá se faziam presentes grandes nomes da música popular como Pixinguinha, João da Baiana, Donga (considerados a Santíssima Trindade do Samba). Sinhô, Didi da Gracinda, Caninha, João da Mota, Hilário Jovino (o Lalau de Ouro) e o jornalista Mauro de Almeida.

Estabelecia-se assim o rítmo que embalaria definitivamente o carnaval carioca e que seria a base da maior representatividade da festa que só crescia, o desfile das escolas de samba. Deixarei para outro post os bastidores desse período e os detalhes que diferenciariam este pupilo dos outros sambas nordestinos e que possibilitaria aos músicos e o público a cadência necessária para melhor desfilar na avenida.

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